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Bullying: provocações que humilham

12 Jul 2017

 

 

Em um ambiente no qual muitas crianças ou adolescentes convivem, é natural que ocorram conflitos. Conflitos são parte do processo de socialização. Ocorrem disputas por espaço social; por popularidade ou por atenção, na busca por encontrar; desempenhar e garantir um papel representativo nos espaços de convivência.

 

Como ainda estão em formação, crianças e adolescentes precisam poder contar com a mediação dos adultos envolvidos nesses ambientes, sejam eles a própria casa ou um local de convivência, como a escola ou o clube. Os pais têm enorme e intransferível responsabilidade na formação do caráter social de seus filhos. É preciso ficar atento a alterações de comportamento e manifestações emocionais. É fato que os pais não são as únicas referências para os menores; crianças e adolescentes espelham-se em modelos de comportamento oferecidos tanto por adultos quanto por seus pares de convivência social. Entretanto, verdade seja dita: é da família a responsabilidade de formação do caráter dos jovens e das crianças.

 

Uma questão extremamente séria se configura quando se tem a percepção ou desconfiança de que seu filho, ou filha, possa estar envolvido em situações ligadas a provocações, humilhações e sofrimento infringido a outros, e não buscar entender o que se passa, para assumir seu papel de responsável pela condução e orientação dos menores. A presença do Bullying deflagra a necessidade de intervenção dos responsáveis, uma vez que, tanto o agressor quanto a vítima que estejam envolvidas em situações de agressão (física ou verbal), apresentam em seu comportamento sinais claros de dificuldades em administrar situações afetivas e relacionais.

 

Crianças e jovens podem provocar colegas com a intenção legítima de brincar, colocando-se numa postura aberta de serem igualmente provocados. Nessa situação, todos os envolvidos têm a possibilidade de se divertir. É importante entender que crianças e jovens reproduzem comportamentos observados. Assim, ambientes em que a prática de “brincadeiras” cuja característica é zombar do outro, de suas fraquezas ou de características físicas destoantes, formam crianças e jovens que creem ser esta uma maneira legítima de tratar seus pares. Ocorre, no entanto que, estando em formação, falta aos pequenos a maturidade para discernir com clareza o que é amigável do que é ofensivo.  E, no caso de estar passando dos limites aceitáveis de convivência, conseguir mudar ou reverter a situação, sozinho.

 

No caso de ocorrerem afrontas ofensivas, com a explícita intenção de causar desconforto no outro, é necessário que ocorra a imediata intervenção de um adulto responsável. Algumas crianças e jovens podem ser alvos fáceis dessas provocações, por destoarem dos padrões estabelecidos de peso, altura, aparência ou jeito de falar. Neste caso, aqueles que provocam podem, com o tempo, perder de vista o quanto pode ser doloroso ser caçoado; podem, inclusive, passar a sentir prazer em provocar o constrangimento, seja para sentir que tem algum poder ou para ser notado.

 

O Bullying pode surgir por diferentes motivações. Algumas vezes, pode acontecer de a pessoa ter naturalmente uma postura mais carismática que atrai a atenção do grupo, conquistando de forma intencional ou não, uma maior popularidade. Nesse caso, é possível que, junto com a admiração venham sentimentos bem menos nobres, como a inveja e o ciúme. Assim, essa exposição pode colocar essa pessoa como alvo da irritação de outros que não desfrutem do mesmo aparente sucesso junto aos demais.

 

Portanto, caso percebam que seus filhos possam estar envolvidos nesse tipo de situação, quer seja por provocar ou ser provocado, é indispensável procurar entender motivações e padrões de comportamento. E, tomando conhecimento, é preciso agir; e se for necessário buscar ajuda terapêutica para lidar com a situação. Em ambas as situações os filhos precisam da presença concreta da família.  Eximir-se dessa responsabilidade é abrir mão do papel de orientar o processo de formação dos filhos.

 

Atentos ao comportamento dos menores, os adultos conseguem perceber sinais importantes que podem revelar que algo não vai bem, tais como: choro repentino; alterações no sono; humor instável; irritação além do normal ou necessidade constante de isolamento. Diante de alterações de comportamento, é sempre indispensável redobrar a atenção para encontrar a melhor forma de abordar o problema e ajudar os menores a lidar com situações difíceis.

 

Uma vez confirmado o envolvimento em situações de conflito relacionado às provocações, é indispensável que os adultos se preparem e se organizem para intervir e mediar, ajudando os menores a compreender; refletir e ressignificar seus comportamentos, encaminhando-os para o estabelecimento de relações mais saudáveis.

 

É fundamental que os adultos planejem formas de promover a reflexão tanto dos agressores quanto dos agredidos. Algumas questões podem auxiliar na tomada de consciência, ajudando os dois lados afetados a interromper o processo automático de sofrimento que pode já ter se instalado. Eis algumas sugestões: “Como me sinto ao provocar ou ser provocado?”; “O que observo no outro quando provoco ou sou provocado?”; “O que o outro parece sentir?”; “Qual a minha motivação?”; “O que eu gostaria de saber sobre o outro que não sei?”; “Essa pessoa que me agride ou a quem eu agrido tem qual importância para mim?”; “Que tipo de punição eu espero receber pelos meus atos?”; “Eu quero continuar com isso? Por quê?”.

 

Tão importante quanto ajudar a administrar as situações de provocação que envolvem sofrimento é buscar compreender que os conflitos são parte preciosa do processo de desenvolvimento. Pensar e agir de forma diferente é natural e saudável. A diversidade de posturas, aparências, crenças, opiniões e comportamentos é o que torna as relações interessantes, desafiadoras e complementares. Assim, é preciso acreditar e defender um comportamento social, segundo o qual, fazer o outro sofrer não pode, em hipótese nenhuma, ser fonte de prazer ou estratégia para aplacar o desconforto de uma autoestima que pode vir a se consolidar numa personalidade frágil e deformada.

 

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